POESIA - DEPOIS DAS DUAS
DEPOIS DAS DUAS Depois das duas não há mais cheiros de folhas de louro, de dentes de alho, de cebolas, de pão, de massas ao molho. Depois das duas não há mais sons de conversas, de risos, de talheres, de líquidos derramando-se nas taças. Depois das duas os raios de sol são hipotenusas estendidas dos olhos ao chão. A sombra em ângulo reto com o corpo ereto como um cateto oposto. Depois das duas o prazer fez parte da vida e agora faz parte do tempo que depois fará parte da história - no fim da história do tempo da vida da gente. Depois das duas: pernas, pra que te quero? Pra buscar a vaca que foi pro brejo, pra tirar o pai da forca, pra chutar o pau da barraca, pra sair dando nas canela, porque aqui, quem não corre, voa; porque aqui, cortam-se asas - as duas, pontualmente às duas. Depois das duas, só depois das seis. Autista Baptista