POESIA - DITIRAMBO DA ALTERIDADE
Gosto de pensar que o que me mantém unido a ti é justamente o que deveria nos afastar. Gosto de pensar que busco em ti somente o que me falta, que minha autossuficiência não é suficiente para me preencher a pauta e que as lacunas em mim são gigantescas e assustadoramente escuras e imperfeitas. Gosto de pensar que gosto de implodir pontes, como qualquer pessoa normal, acreditando-se que seja normalidade a alteridade do gosto. Gosto de impedir partidas e chegadas, de fechar saídas e entradas, de atiçar tua contrariedade, pois dela virá, tenho certeza, qualquer coisa que alimenta e sacia a sede de verdade. Gosto quando me acusas de querer ser o dono da verdade - gosto de ser o abastado dono de coisas que não existem - do futuro, por exemplo. Gosto de estar perto de ti e ao mesmo tempo completamente longe, não por incompreensão, ou distanciamento, mas pelo prazer de me reconhecer, de ti, tão diferente. Gosto de ti e do que pensas, mas gosto mais de mim. Por isso, admiro o que fazes, mas nã...