ADÉLIO CONHECEU O MAR




Sérgio, como era conhecido, um dia convidou o filho para passear, irem a um bar, tomar umas cervejas, e conversarem sobre qualquer coisa.

Adélio, que sempre foi meio relutante, desta vez aceitou.

E Sérgio e Adélio, pai e filho, foram a um boteco para beber e conversar.

E divertiram-se muito, riram a mais não poder, até que, a certa altura, Sérgio propôs: ”Vamos, nós dois, visitar o mar? Eu dirijo, te levo, tu vais comigo. Vou mostrar-te o que não conheces. Vamos?”.

Adélio achou o convite meio estranho. Mas, porque confiava no pai, respondeu: “Sim.”.

No dia seguinte eles partiram para uma praia do litoral norte do Rio Grande do Sul. Foram a Rainha do Mar. Lá chegando, Sérgio alugou um apartamento para ambos e, à tarde, iriam à praia. Sérgio escondeu do filho que já conhecia o lugar, mas isso ficou como uma novidade que os dois iriam aproveitar.

Depois do almoço, saíram, pai e filho, em direção à praia.

Havia um quiosque, com mesas e guarda-sóis onde eles sentaram-se.

Adélio estava ansioso, mas o pai procurou acalmá-lo.

Então, numa bela hora, Sérgio falou: “Vem, meu filho, vamos entrar na água.”.

Adélio já havia sentido o sol e como o calor que emanava dele era diferente, e o vento que soprava como era igual ao que ele nunca tinha sentido, e como tudo o deixava contente. E falou, empolgado: “Vamos!”.

Sérgio disse para o filho: “Pode deixar tua bengala aqui, não vais precisar dela. Confia em mim, meu amor. Eu te falo o que vamos sentir.”.

Adélio apoiou-se no braço do pai e, pela primeira vez, sentiu o mar. Primeiro nos pés, depois nas canelas e, se aprofundando mais, a água até o peito. E pai e filho brincavam felizes, até que Adélio pediu: “Pai, me mostra o que não posso ver?”

E Sérgio falou sobre o sol que ambos estavam recebendo, e sobre as ondas, nas quais estavam brincando, e sobre as pessoas em volta deles, como estavam sorrindo. E mostrou ao filho, em palavras, como o mar era lindo.

Adélio sentia tudo, tudo o que o pai ia descrevendo e, quando estavam saindo da água, parou por um instante, voltou-se em direção ao mar e disse-lhe:

“Pai, apesar de cego, posso sentir toda a alegria e o amor que vem de ti. Eu não seria feliz, eu não seria nada, se não houvesse o mar, o sol, o vento e o amor que sinto por ti.”.

“Meu filho”, disse Sérgio, envolvendo o filho num abraço sinceramente emocionado, “o que seria de mim se não houvesse o mar e o amar por ti?”.


João A. Pereira

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