O SENTIDO DA GUERRA
Aqueles que vamos matar não têm nome
Aqueles que vamos matar não têm rosto
Aqueles que vamos matar nos esperam
Não dançaremos à volta dos seus corpos
não os enterraremos
não lhes faremos ritual algum
nem cerimônia
nem preces
como fazem os vivos
para homenagearem os que perecem
Deixaremo-os para que apodreçam na terra
a mesma terra de que são feitos
A cara afogada no barro
o barro encharcado de sangue
o sangue coagulado de balas
Não lhes recolheremos os pedaços
Não colecionaremos cadáveres
Ficarão lá
para os bichos
para as aves
para os vermes
para as plantas
Esses que os comam
pois deles se alimentam
Não viemos pelos corpos
mas pelas almas - para arrancá-las
Aqueles que veremos morrer não nos interessam
Não passam de homens
mulheres
crianças
velhos
Não nos interessam
Não nos pesam nos olhos
Não nos doem no peito
Não viemos aqui para amá-los
viemos apenas
Matá-los Matá-los Matá-los
Todos
Aqueles que nos esperam para morrer
também esperam para matar-nos
E só por isso nos esperam
E só por isso vieram
Só por isso deixaram suas casas
suas mulheres seus maridos seus filhos
seus pais seus amigos seus sonhos
Só para estarem aqui
Para que os façamos morrer
ou
para que possam matar-nos
Não viemos aqui para sabê-los
Não estamos aqui para conhecê-los
Estamos aqui para com eles acabarmos
Para garantir que nenhum restará
nenhum desses que vieram
Para garantir que nenhum voltará
para quem quer que os possa amá-los
E por isso também nós deixamos tudo
tudo o que nos pertence
e tudo a que pertencemos
Viramos as costas
Não ouvimos os pedidos
Não vimos as lágrimas
Soltamo-nos dos abraços
Porque mais nada importa
NADA
Só o que importa é matar a esses
esses de quem não sabemos o nome
esses a quem não veremos o rosto
Avante Avante Avante
Em nome do que quer que seja
de quem quer que seja
Avante Avante Avante
Matá-los Matá-los Matá-los
Todos
Autista Baptista
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